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Leonardo
Panço
julho/2002
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Leonardo
é guitarrista do Jason e dono do selo Tamborete
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Leonardo
Panço é guitarrista do Jason, banda de
hardcore malucão. Nessa entrevista, ele conta a Anderson Foca
um
pouco da história do Jason, fala sobre o selo Tamborete e quais
os planos pra o futuro.
Foca - Como foi a idéia
de começar o Jason?
Panço - Em 97 as nossas
bandas estavam meio capengas e a gente se juntou para tocar hardcore, o
que a gente já tinha usado em nossos sons anteriores, mas nunca
exclusivamente hc. Logo no primeiro ensaio fizemos umas 5 músicas
que mais tarde entraram na demo e no primeiro CD. Marra de Cão por
exemplo como tá no CD “Odeia Eu” foi tocada exatamente assim na
primeira vez. Eu comecei o riff, eles entraram, o Vital encaixou a letra
que o Flock já tinha levado e pronto.
A química foi
muito boa e daí partimos. Nas outras bandas da gente, talvez a gente
tenha gasto muito tempo para fazer pouca coisa por termos pessoas junto
com a gente que não se dedicavam do mesmo modo que nós. Isso
era um pouco frustrante. Daí partimos em frente e o resto é
história e lenda.
Foca - Depois de alguns discos
numa linha mais hardcore houve uma mudança na sonoridade do disco
novo, explique os motivos.
Panço - Não
tem exatamente um motivo. Para começar, acho que é consenso
na banda, que um artista tem sempre que mudar, provocar e andar para a
frente. A gente poderia sem problema nenhum compor mais 10 hardcores e
fazer um CD parecido com o primeiro, mas que graça iria ter? Provavelmente
muito pouca. E mesmo falando assim, parece que planejamos tudo meticulosamente,
mas nem foi. Foi muito natural. Começamos a compor para o
terceiro CD e vimos que as coisas que estavam aparecendo eram diferentes
do que já tínhamos feito.
Qual o problema? Nenhum.
A gente ouve muitas coisas distintas há muitos anos, então
porque não ousar?
Foca - A banda está sempre
em formação, é difícil se manter no underground?
Panço - Os caras do
Mudhoney vieram ao Brasil e disseram que têm empregos normais porque
não podem viver só da banda, um dos caras do Agnostic Front
trabalhou na remoção dos escombros do WTC em Nova Iorque
como peão,
então está aí
a resposta. Se no país mais rico do mundo, eles precisam ser jardineiros,
porque no Brasil seria diferente, né? A gente vai levando e fazendo
com que a banda banque nossas coisas básicas. Se vai viajar, tem
que ter as passagens pagas. As camisas têm que gerar as próximas
camisas, os CDs têm que gerar alguma coisa. É difícil
mas a gente segue em frente sempre.
Foca - Fale um pouco da Tamborete,
novidades, distribuição...
Panço - A Tamborete
vai como sempre, devagar, mas andando. Esse ano lancei o novo do Jason,
o segundo do Cabeça aqui do Rio de Janeiro e o primeiro do Verbase,
lá de Ubá em Minas Gerais. Estamos começando a divulgar
esses três sem nunca esquecer dos antigos. Para o segundo semestre,
novos horizontes. Nada de CDs. Vou
lançar meus dois livros e
ver que bicho dá. Já que eu tô sempre arriscando meu
rico dinheirinho, preferi aplicar em mim mesmo. Bandas são
muito difíceis. O baterista sempre sai, o vocalista arruma emprego
e não faz mais show, o guitarrista não vai no ensaio, a banda
não toca e não vende os CDs. Quem se dá mal sou eu.
Então vamos tentar umas coisas novas. Até que me provem o
contrário.
No começo do
ano que vem, vou lançar duas bandas da Espanha chamadas Escuela
de Odio
e Net Weight, as duas muito boas.
Pelo menos já sei de antemão que eles não vão
fazer shows mesmo.
O Jason durante
a turnê européia
de 80 dias
Foca - Fale um pouco da turnê
européia!
Panço - Pelo menos
para mim foi um sonho de adolescente. Comecei viajando nisso quando o Cólera
lançou o LP European Tour 87. Depois aumentou quando o Ratos
foi, o Ação Direta, o Krisiun, e finalmente o No Rest de
Porto Alegre que deu uma complementada na inspiração de ir.
Nós já tínhamos tocado juntos lá no sul e aqui
no Rio e quando eles deram uma parada
na tour na Europa e falaram que estavam morando na Noruega e que a van
que eles tinham comprado não estava sendo usada, a vontade aumentou.
Passei um ano mandando
CDs para todo mundo que descobria que poderia ajudar em algum país
até que viajamos, nós 4, o Zé e o Santiago do No Rest.
Fizemos 62 shows em 12 países em 80 dias. Tocamos em escola abandonada,
squats podres, squats legais, casas de shows foda, estúdio de ensaio,
na rua, na casa de amigos e pronto. Somos o máximo dentro das nossas
cabeças. Eu vi esses dias uma entrevista do Karnak e o Abujamra
falou exatamente o que eu acho dessa história toda. “Eu sou muito
famoso
para mim mesmo”. Acho que é
exatamente isso.
A viagem da Europa
nos proporcionou algumas coisas inesquecíveis e a cada coletânea
que chega de lá com uma música nossa, eu fico mais satisfeito
com todos os anos antes do Jason, onde acho que estive me preparando para
o que faço agora. Viajei um pouco, mas acho que deu para entender.
Ou não.
Foca - Como surgiu a idéia
do Tributo ao Inédito?
Panço - Há mais
ou menos um ano e meio que na primeira segunda-feira do mês, várias
pessoas das bandas, principalmente da zona norte, se reúnem num
rodízio de pizza para falar bobagem, falar mal dos outros e vez
ou outra ter idéias.
Surgiu assim. No final
das contas acho que ficou muito bom o resultado final, com ótimos
artistas que estão se dedicando bastante para que o CD seja uma
grande mostra do nosso trabalho.
Fizemos o show de lançamento
na festa Loud aqui no Rio e vendemos as mil cópias no mesmo dia.
Além disso, outras mil cópias foram roubadas do caminhão
da fábrica, o que acho que nos ajuda de um certo modo.
Algum camelô
do Rio ou de São Paulo deve estar vendendo 3 por 10,00 e para nós
é divertido. Mais pessoas vão conhecer. Já mandamos
fazer mais mil cópias e agora vamos estar dias 23 e 24 de julho
na Casa de Cultura da Estácio de Sá e no dia 18 de agosto
no festival Rato no Rio, ambos no Rio, dando seqüência
à tour de lançamento
do Tributo. Em setembro vamos tocar no Ballroom aqui também e estamos
começando a fechar outras cidades para levar as 10 bandas.
Foca - Você tem muitos amigos
em gravadoras, qual a relação do Jason com as majors?
Panço - Acho que dá
para dizer que nossa relação é zero. Nós nunca
mandamos CDs para eles e eles nunca nos telefonaram por motivo algum. Se
algum dia ligarem, por um motivo que não sei qual, quem sabe, né?
É o tipo de coisa que não acreditamos que vá acontecer,
mas... Tem muita gente burra nessas gravadoras. Já
trabalhei na EMI, já recusei
empregos em outras duas gigantes e não vou dizer nunca, porque nunca
é muito tempo, mas acho que não devo mais trabalhar em uma
gravadora novamente. Voltaria se fosse para fazer algo de útil
com liberdade, ou seja, muito difícil.
Vejo caras inteligentes
como o Rodrigo do Dead Fish escrevendo coisas ótimas e sou obrigado
a aturar coisas indigentes em doses enormes. O Karnak sem gravadora, o
Djangos venderam mil cópias na Warner, os MC´s HC têm
que comprar os CDs deles mesmos no Carrefour por 2,90 para vender porque
a gravadora pede
10,00 por cada disco para eles e
por aí vai. Prefiro lançar as bandas eu mesmo, ter meu emprego
de jornalista e ir levando a vida. Música é arte.
Se no próximo CD do Jason a gente quiser fazer 30 minutos de improviso,
eu enquanto dono e office-boy da Tamborete, vou autorizar e pronto.
Foca - Eu, Tu, Denis nasceu como?
Panço - Uma pergunta
estranha. Começamos a compor depois do segundo CD e diferente dos
dois primeiros, quando levávamos quase tudo pronto para o ensaio,
cada um criando em casa, nesse a gente compôs quase tudo no estúdio
mesmo. Começamos já com a grande mudança que era o
Fábio no lugar do Rafael na bateria, o que já era um ponto
de ruptura. Acho que a gente se impôs menos regras nesse disco novo.
Espero que essa seja assim sempre. O que quer dizer que nada impede que
no próximo a gente faça músicas iguais às do
primeiro.
Foca - E os shows desse disco
ainda estão acontecendo?
Panço - A verdade é
que os shows ainda não aconteceram. Voltamos da Europa há
um ano e para uma banda independente brasileira, fizemos muita coisa nesses
12 meses. Mas muito menos do que eu gostaria. Como o Vital preferiu não
fazer mais shows com o Jason para se dedicar à banda nova dele,
o Jimi James, estamos há vários meses procurando alguém
pro lugar dele, mas não está sendo nada fácil. Esse
ano fizemos apenas 3 shows e ainda com ele, nos dias que ele tinha livre
com o JJ. E agora, a outra banda do Fábio, o Detonautas, assinou
com a Warner e ele também não está mais na banda.
Vamos fazer os próximos dois shows com o Griva na bateria que também
é do Jimi James, mas é uma situação que pede
uma solução urgente. Queremos muito poder resolver isso para
voltar ao nordeste, já
que não fomos nem em 2001
e nem esse ano, o que para nós é realmente uma pena. Só
para esclarecer, desde que voltamos da Europa, nós gravamos o CD
novo e depois mais duas músicas que estão no Tributo ao Inédito,
conseguimos finalizar o clipe de A Bela Canção, que já
estreou na MTV e gravamos um novo, já do CD novo, todo em massinha,
e que está para estrear por agora.
Jason versão
massa de modelar no
clipe da música
"A Bela Canção"
Gastamos também
muito tempo preparando material para os lançamentos gringos. Os
dois primeiros CDs estão saindo na Espanha em um CD só, com
o nome de “Odiame y seré tu fan” e o Flock fez uma nova capa e eu
gastei milênios para traduzir as 37 faixas para o espanhol, já
que a gravadora de lá quer colocar as traduções no
encarte para saber o que estamos falando. A mesma coisa aconteceu para
um split-LP que vai sair na Áustria com um lado só nosso
e outro de uma banda local. O nosso lado terá músicas dos
3 discos mais um cover surpresa que só vai sair por lá mesmo.
O Flock fez toda a arte e tivemos que traduzir as letras para o inglês
porque eles querem saber o que falamos também. Esse LP vai sair
com mil cópias por lá, mas será lançado além
da Austria, na Polônia, Alemanha e Rep. Checa. Depois é torcer
para conseguirmos voltar lá para o show de lançamento.
Quem sabe, né?
Depois que voltamos da Europa já saímos em uma coletânea
na Espanha e três na Alemanha. Essas coisas parecem que não,
mas dão bastante trabalho, sendo que temos os empregos normais,
Tamborete, o Flock tem feito várias capas para um monte de gente
e principalmente várias ilustrações para a Deckdisc,
a gravadora do Rafael, nosso antigo baterista, que vale à pena ressaltar,
deixou a gente mixar nosso CD novo e as duas músicas do Tributo
“di
grátis” nas horas vagas do
estúdio dele, que é o
segundo maior do Rio e um dos mais
fodas do Brasil.
Foca - O que você está
ouvindo atualmente? Cite 5 CDs.
Panço - Ok.
1. Sonho
Médio - Dead Fish
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Passei um bom tempo sem gostar
desse CD porque as letras não encaixavam na música, algumas
frases são faladas muito rápidas para poder encaixar no tempo.
Depois de uns dois anos passei a ouvir mais e tenho ouvido umas três
vezes por semana, principalmente
a música Mulheres Negras.
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2. Bloco
do Eu Sozinho - Los Hermanos
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Gosto dos Hermanos desde o primeiro
segundo em que coloquei a demo pra ouvir há uns 5 anos atrás.
Nunca tinha visto show e ouvi essa fita cinco vezes seguidas na mesma hora.
A mesma coisa aconteceu quando ouvi o Bloco. Não tem muito o que
falar mesmo. Quem compõe Cher Antoine e Cadê meu Suin? Mostra
como tá anos à frente da maior parte da mediocridade que
reina por aí e mostra principalmente que vai estar por aí
nos próximos 15 ou 20 anos,
pelo menos eu espero.
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3. Impaciência
- Vulgue Tostoi
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Essa é uma banda aqui
do Rio que faz algo como trip hop, rock e poesia. Júnior é
provavelmente
o guitarrista com mais bom gosto
do Rio e
agora tá tocando com o Lenine
também. Acho que eles levaram mais de um ano só gravando.
Só de ouvir dá para saber isso porque tem uns 50 timbres
de guitarra diferente.
Muito fodão mesmo.
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4. Toxicity
- System of a Down
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Não tem muito o que falar.
Os dois discos
desses armênios é o
que melhor foi feito no metal nos últimos anos. O sotaque do cara
fica muito foda e as guitarras são sacanagem. Sempre que ouço,
acho que o maluco tá
fazendo coisas mais legais que antes.
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5. Relation
Ship - At the Driven in
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Esse tem que ser ouvido com
fone de
ouvido porque dá para ouvir
as duas guitarras
separadas e a da orelha esquerda
é só viagem, enquanto a da direita segura a levada.
Queria tocar nessa banda. Deve ser muito bom fazer um show com aquelas
músicas ouvindo o cara cantando e agitando pra cacete. Quem viu
o clipe, sabe qual é. Tanto esse cara quanto
o do System of a Down tem o que
é essencial num dito cantor de rock pesado. Tem que saber cantar,
mas tem que saber berrar. Uma coisa sem a outra não é tão
divertida.
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Foca - E daqui pra frente...
Panço - Dia 31 de agosto
vamos estar tocando em um grande festival em uma fazenda no interior de
Minas com o Dead Fish, Raimundos, Leela e Sepultura, além de várias
outras bandas. Chegamos a fazer dois ensaios para fazer um CD só
de covers, mas não sei exatamente porque, demos uma parada nisso.
Ainda não sei se isso
vai acontecer. Talvez não.
Daí para frente é substituir quem cantou para subir, tocar
no Reading Festival como banda principal, gravar
o Peel Session na BBC de Londres,
fechar o Ozz Fest do ano que vem com o Black Sabbath formação
original abrindo pro Jason, e encerrar a carreira tocando no telhado de
um prédio. Depois ainda não decidimos se vamos morrer de
overdose em Paris, se matar aqui no Rio mesmo ou ir morar na roça
tipo o Arnaldo Baptista.
Tomar decisões
é muito difícil.
(www.jasonhc.cjb.net)
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